18
set
14

UFJF oferece especialização a distância em cultura indígena

Inscrições estão abertas até a próxima sexta-feira (19).
São 50 vagas, sendo 40 a professores da rede pública e 10 para público.

Seguem até esta sexta-feira (19) as inscrições para a Especialização em Cultura e História dos Povos Indígenas, que está sendo oferecida gratuitamente pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) na modalidade a distância. São oferecidas 50 vagas, sendo 40 destinadas a professores em exercício na rede pública de ensino e dez para demanda social, com ampla concorrência.

O curso busca qualificar os professores nas abordagens e propostas  pedagógicas da temática de cultura e história dos povos indígenas do Brasil. Os interessados devem se inscrever pela internet, no site do Centro de Educação a Distância. É necessária ainda a entrega até sexta-feira de documentos mencionados no edital diretamente no polo de Juiz de Fora, localizado na Rua José Lourenço Kelmer, s/n, no Campus da Universidade Federal de Juiz de Fora, na Pró-Reitoria de Pós-Graduação. Confira aqui o edital completo.

O resultado final da seleção de alunos será divulgado no dia 12 de outubro de 2014, a partir das 17h, no site do Cead.

27
ago
14

Nota da Coiab sobre a criação do Instituto Nacional de Saúde Indígena

unnamedA Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, COIAB, tendo tomado conhecimento da proposta do governo de criar o Instituto Nacional de Saúde Indígena, vem a público manifestar sua insatisfação diante desta iniciativa governamental que nada tem relação com todo esforço do movimento indígena dos últimos anos em discutir um sub sistema distrital de atenção à saúde indígena com autonomia administrativa e financeira.

Para viabilizar este modelo, pensado para valorizar as formas próprias de medicina e o controle social exercido pelas comunidades indígenas e suas organizações e garantir uma atenção a saúde de qualidade, após muita luta, finalmente foi criada a Secretaria de Saúde Indígena, SESAI.

Inexplicavelmente, em 04 anos de existência a SESAI não deu nenhum passo no sentido consolidar o subsistema de atenção à saúde indígena, desconsiderando por completo as reivindicações do movimento indígena de realização de um concurso público específico e da regulamentação das categorias profissionais indígenas como a do Agente Indígena de Saúde, AIS e do Agente Indígena de Saneamento, AISAN.

Usando o caos que se instalou na saúde indígena o governo de forma autoritária, encobrindo sua falta de vontade política e incompetência administrativa, tenta impor a privatização da saúde indígena. Sua estratégia é de forma rápida conseguir a adesão dos conselheiros indígenas, antes que estes tenham acesso a informações amplas a respeito do que significa esta nova política.

O fato desta proposta não ter sido ventilada em nenhum momento nas etapas da V Conferência Nacional de Saúde Indígena concluída em novembro do ano passado mostra que o governo tenta evitar de todas as formas que os povos indígenas manifestem a sua vontade de forma livre e informada como prevê a Convenção 169 da OIT.

Diante de todo o debate feito nos últimos anos no sentido da efetiva participação indígena na construção das políticas públicas voltadas para os seus povos é inaceitável imposição de um modelo privatizado de saúde indígena e sem controle social.

Alertamos os povos e organizações indígenas da Amazônia Brasileira sobre esta tentativa de imposição de um modelo de atenção à saúde absolutamente estranho e reafirmamos o compromisso da COIAB em continuar lutando pelos direitos coletivos e pelo bem viver de nossas comunidades.

Coordenação das Organizações Indígena da Amazônia Brasileira – COIAB.

Manaus – Amazonas, 25 de agosto de 2014.

26
ago
14

Projeto resgata cultura dos karajá e xavante

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A mitologia, as histórias e narrativas dos povos indígenas reveladas em toda sua beleza e força em livros ilustrados e CDs de áudio com a interpretação das histórias. É o que foi feito pelo projeto “Histórias da Tradição”, que conseguiu documentar e organizar, para o grande público, parte do importante patrimônio cultural de dois povos originários do Brasil, num trabalho realizado em parceria com as comunidades indígenas.

Tudo se completa agora, com o lançamento de dois livros e dois CDs, um com histórias de uma aldeia Karajá e outro com narrativas de uma aldeia Xavante, além de um website com conteúdo extra.

“O projeto é uma resposta ao pedido dos velhos sábios das aldeias que acreditam que as novas tecnologias, quando apropriadas e conduzidas pelas comunidades, podem ser armas importantes para manutenção das tradições”, explica Angela Papiani, criadora do “Histórias da Tradição” e diretora da Ikor?, produtora responsável pelo projeto.

Os livros são “Ynyxiwè, que trouxe o sol e outras histórias do povo Karajá” e “Aihö’ubuni wasu’u – o Lobo Guará e outras histórias do povo Xavante”. Ambos possuem encarte de pôster colorido e CD.

Para o lançamento dos volumes, foram feitos eventos em cidades próximas às aldeias. Em Canarana (xavante) aconteceu no último dia 02 de maio, na Câmara Municipal da cidade, com a presença dos realizadores (equipe com narradores, coordenadores e ilustradores) para uma noite de autógrafos, quando os índios Xavante realizaram uma cerimônia de canto e dança na praça em frente ao prédio.

Em São Felix do Araguaia, próximo à aldeia Karajá, o lançamento oficial foi adiado, por conta das chuvas que dificultam o acesso à região. No Rio de Janeiro, o lançamento foi no dia 21 de maio, na Livraria da Travessa de Botafogo.

Na capital carioca, os eventos contaram com a presença de quatro integrantes das duas aldeias envolvidas no projeto. Eles falaram sobre o processo e a importância da manutenção de suas tradições. O projeto foi desenvolvido ao longo de 10 meses de trabalho intenso com as aldeias Fontoura, do povo Karajá, do Tocantins, que se autodenomina Iny e Etenhiritipá do povo Xavante, Mato Grosso, que se autodenomina A’uwe uptabi.

O processo envolveu a capacitação de equipes das duas aldeias para a documentação das narrativas tradicionais em áudio, a participação dos anciãos — os narradores tradicionais detentores do conhecimento, e dos professores e alunos das escolas indígenas nas traduções e ilustração das histórias.

Mais de 60 pessoas indígenas envolveram-se em todas as etapas do processo, incluindo preparação para que continuem a registrar sua cultura. “Somos de uma linhagem antiga. Aprendemos com nossos ancestrais os fundamentos da tradição, transmitidos de geração a geração. Mantemos vivo o Espírito da Criação”, explica Paulo Xavante.

“Nosso mundo era o mundo da oralidade. A gente guardava nossa historia só na memória. Com este projeto, chegou nossa vez de registrar tudo, de colocar no papel as histórias para ficar para as futuras gerações”, afirma Elly Mairu Karajá.

As comunidades selecionaram entre as mais de 50 histórias registradas em áudio, as mais representativas, que melhor revelam os fundamentos dessas tradições. As seis histórias do povo Xavante e seis do povo Karajá foram então traduzidas com todo o cuidado para o português, preservando o estilo do narrador, o ritmo e a essência das histórias.

25
ago
14

Livro-reportagem “Marãiwatsede: a trajetória Xavante na luta pela terra” é apresentado em congresso de jornalismo investigativo

xavante

Por Maira Ribeiro – Articulação Xingu Araguaia

Entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, ocorreu o XIX Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) em São Paulo. No último dia, foram apresentados os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) selecionados pelo Congresso.

Um deles foi o livro-reportagem “Marãiwatsédé: A Trajetória Xavante na Luta pela Terra”, das jornalistas formadas pela UFMT de Barra do Garças, Sckarleth Alves Martins e Dandara Morais. Dandara faz parte do Grupo de Comunicação da Articulação Xingu Araguaia (AXA). Confira entrevista com Sckarleth, uma das autoras.

O livro relata e esmiúça o histórico do povo Xavante de Marãiwatséde, que foi expulso de suas terras em 1966, poucos anos após o início do contato com não-indígenas. Seu território deu então lugar a um dos maiores latifúndios da época, a Fazenda Suiá-Missu, no nordeste mato-grossense.

Nas décadas seguintes, o povo de Marãiwatsédé lutava pela própria sobrevivência e pelo retorno ao seu território tradicional. Somente no ano de 2012, após grilagem e desmatamento de suas terras, conflitos diretos e arrasto de processos judiciais, finalmente houve a desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé e o povo Xavante está começando a usufruir integralmente do seu território.

Tivemos a oportunidade de conversar com Sckarleth Martins, que apresentou o trabalho no Congresso da ABRAJI. Ela nos contou um pouco sobre o projeto de pesquisa e seus desdobramentos e a importância de um jornalismo comprometido que divulga as lutas populares, em particular dos povos indígenas, que são pouco noticiadas e repercutidas.

 

ENTREVISTA

AXA – Do que se trata o livro-reportagem “Marãiwatsédé: A Trajetória Xavante na Luta pela Terra”, resultado do TCC seu e de Dandara Morais?

SCKARLETH MARTINS – O livro-reportagem é um resgate da história desse povo, ao mesmo tempo em que assume um caráter denunciativo. Trata-se de um resgate histórico por conta da riqueza de detalhes sobre a vivência deste grupo Xavante, característico por sua memória oral viva e pulsante. É um resgate principalmente para nós, que, por vezes, somos alheios aos modos de vida dos povos tradicionais e à violência a que foram (e são) submetidos desde o contato com os não-índios.

À primeira vista, a história pode ter um tom meio fabuloso, porque é difícil aceitar que o Estado brasileiro tenha sido conivente com uma situação de violência por tanto tempo. Um povo que é transferido de sua terra ancestral para atender a interesses inventivos do negócio agropecuário. Em detrimento da lisura com os gastos públicos, os invasores foram agraciados com verbas federais para usufruir de um território tradicional, enquanto os Xavante ficaram à míngua perambulando por entre terras de parentes. Quando, finalmente, conseguem reaver seu território, depois de mais de quarenta anos de exílio, são postos em uma situação de conflito com pequenos produtores que, também, foram enganados. É uma trama que, mesmo repleta de reviravoltas, possui um apego ao real muito pungente.

AXA – O que as motivou a escolher este tema?

SCKARLETH – Quando estávamos no processo de pesquisa sobre o Trabalho de Conclusão de Curso, a escolha foi quase que intuitiva. Tínhamos o interesse de produzir um produto jornalístico, e a época da submissão do projeto na Universidade coincidiu com o momento da Desintrusão no Território Indígena. De fato que, quando acompanhávamos a cobertura local dos veículos de mídia, havia muita informação desencontrada e de modo muito superficial. Logo, decidimos nos aprofundar nas investigações sobre este acontecimento inédito, que é a retirada de não-índios de Terras Indígenas.

AXA – Como foi o contato e a receptividade do povo de Marãiwatsédé com a pesquisa?

SCKARLETH – Por sorte de jornalista em início de carreira (risos), tínhamos realizado um trabalho na disciplina de radiojornalismo no qual entrevistamos o filho do cacique, o Cosme Rité, que é diretor da Escola Estadual Indígena Marãiwatsédé. Nessa época, a escola fazia parte da comarca de ensino de Barra do Garças (MT), e o Cosme sempre ia à cidade para resolver pendências burocráticas no Centro de Formação e Atualização dos Profissionais de Educação Básica, o Cefapro. Por conta do interesse do Cosme pela educação, apresentamos a nossa ideia de realizar um livro-reportagem sobre a história dos Xavante Marãiwatsédé, e antes mesmo de pedirmos autorização para visitar a aldeia ele nos convidou para uma festa junto ao seu povo. Esta foi a primeira mostra de confiança que ele depositou em nós. O nosso trabalho seria impossível se não tivéssemos a confiança e o apoio dos Xavante.

AXA – Como foi a ida para a aldeia?

SCKARLETH – Quando, enfim, nos sentimos preparadas para visitarmos a aldeia nos demos conta do desafio que seria superar a barreira da língua. Grande parte dos anciãos Xavante não fala português, e eles eram de suma importância para o trabalho, pois viveram em Marãiwatsédé antes do contato com os não índios e sabiam como era a vida longe de sua terra ancestral. Nesta etapa contamos com o auxílio do diretor Cosme, que traduziu as entrevistas e nos apresentou à comunidade.

Quando chegamos à aldeia, todo um mundo de estereótipos caiu por terra. Sabe aquele olhar meio mítico sobre os povos tradicionais em documentários e obras de literatura? Pois bem, a realidade é bem menos lúdica, ainda que colorida. Em Marãiwatséde nos deparamos com uma sociedade que realmente sabe o significado de viver em comunidade. À época, os Xavante estavam a poucos meses vivendo em seu território sem a presença de invasores. Estavam, também, passando por uma crise de desnutrição muito grave, suspeita de envenenamento de sua água, e ainda assim, havia um certo ar de esperança e alegria por terem, enfim, retornado para sua terra ancestral. Era perceptível este mix de emoções em cada conversa, em cada ritual que presenciamos.

AXA – De modo geral, como foi o processo de pesquisa e a construção do livro?

SCKARLETH – Como tínhamos que escrever sobre uma comunidade tradicional, fomos pesquisar o que já havia sido feito sobre os Xavante e demais povos. Nesta etapa, o trabalho voltou-se para leituras mais antropológicas e de estudos culturais. Com relação à pesquisa documental enfrentamos muitas dificuldades para ter acesso às informações junto aos órgãos governamentais. Eles se portaram de forma muito reticente e resistente, mesmo com a Lei de Acesso à Informação em vigor. Bem, depois das entrevistas e da garimpagem de documentos, criamos um banco de dados com todas as informações sobre os Xavante Marãiwatsédé, com datas, nomes dos envolvidos na transferência deste povo e valores cedidos pela Sudam aos invasores. Depois dessa organização prévia, escrever o livro foi fluido porque sempre recorríamos aos documentos para conferir alguns dados e às entrevistas.

Pelo fato da história ter muitos reveses, preferimos por uma ordem não cronológica dos fatos. O primeiro capítulo relata os desafios da vivência atual dos Xavante, com o reflorestamento da área, a saúde da comunidade, a educação etc. No segundo capítulo, nos remetemos à vida em Marãiwatsédé antes do contato com os não índios. Nesta etapa resgatamos um pouco da história dos primeiros invasores da área, até a chegada das grandes companhias internacionais e da exploração desenfreada do solo com incentivos do governo federal. No último capítulo contamos sobre como os Xavante se organizaram para recuperar seu território e se reencontrarem com os egressos de Marãiwatsédé.

AXA – Quais foram os desdobramentos e resultados do livro?

SCKARLETH – O resultado que esperamos deste trabalho, de fato, é que a história de luta do povo Xavante alcance um sem número de pessoas. Muitos povos foram e ainda são exterminados física e culturalmente. Não temos de ser tolerantes com os privilégios de pessoas privilegiadas em detrimento dos direitos das minorias.

Este livro foi selecionado pela ABRAJI para ser apresentado no seu 9º Congresso. A Abraji priorizou os Trabalhos de Conclusão de Curso que, na sua produção, fizessem uso de métodos investigativos e contato direto com as fontes de informação. O livro ainda não foi publicado, então participar deste evento foi uma grata surpresa e uma grande conquista, não só para nós que produzimos o trabalho, mas para a história que, mais uma vez, pôde ultrapassar os limites da universidade. Estamos estudando algumas plataformas de financiamento coletivo e editoras. Além do Congresso da Abraji, apresentamos, também, um artigo científico no Encontro Nacional de Jornalismo Ambiental, em Porto Alegre-RS. Este trabalho realiza uma análise de cobertura de três veículos de mídia online, com linhas editorias diferentes, sobre a ocupação da Câmara dos Deputados durante o Abril indígena de 2013. A ideia é questionar os modos de relatar um mesmo acontecimento em cada veículo e os possíveis desdobramentos.

AXA – O que lhe chamou a atenção na apresentação do trabalho no Congresso da ABRAJI?

SCKARLETH – É curioso notar como os povos tradicionais despertam a curiosidade das pessoas. Às vezes com um tom meio pitoresco e romântico, mas sempre muito afoitas por informação. Durante o Congresso da Abraji, diversos jornalistas discutiram a respeito do processo de apuração não se basear só no trabalho maçante de ficar em frente ao computador revisando planilhas, mas se dar no contato com as fontes, com os envolvidos nos acontecimentos que se pretende investigar. No painel que apresentei o livro-reportagem, por exemplo, os demais trabalhos relataram as mesmas dificuldades com relação a obter informações junto aos órgãos oficiais e trocamos experiências sobre como superar as dificuldades.

AXA – Havia outros trabalhos semelhantes à temática tratada por vocês no Congresso?

SCKARLETH – Todos os trabalhos deste painel foram voltados para investigações de situação de conflito e de fragilidade das minorias. Havia um trabalho sobre a dignidade humana dos homoafetivos e as descobertas científicas sobre as sexualidades. Um sobre a vida no presídio feminino no interior do estado da Bahia. E outro sobre a contaminação de uma comunidade do interior da Bahia por metais pesados.

AXA – De que forma vocês acreditam que este trabalho pode ajudar a comunidade de Marãiwatsédé?

SCKARLETH – Nós não cremos que, com este trabalho, nós mudaremos o mundo. Ainda assim o fizemos acreditando ser possível! Se o livro-reportagem possibilitar um movimento de reflexão por parte dos leitores, já nos será de grande valia. Mas, se conseguirmos motivar outros profissionais e entidades a se dedicarem às causas das minorias, será uma grata surpresa.

AXA – No Brasil, como você enxerga o alcance do jornalismo que dá voz às lutas populares e às comunidades?

SCKARLETH – O jornalismo por si é um instrumento de resistência e denúncia social. No Brasil, desde a redemocratização em 1988, tem crescido o número organizações do terceiro setor voltadas às causas de minorias e às causas ambientais. De fato, é um movimento ainda pequeno, em vista do alcance e da receita das grandes corporações, mas as novas mídias surgem neste contexto como plataforma de resistência e pluralidade. Ainda que, com a democratização dos meios de comunicação já existam novos horizontes, cremos que há de se desenvolver um trabalho de educação midiática da sociedade brasileira. Se possível, seremos ‘mais’ democráticos, quando, de fato, a informação não for um privilégio, mas um direito.

16
jul
14

MPF cobra sinalização e obras de segurança na BR-158 e BR-070

BR158

Recomendação do MPF em Barra do Garças atende reivindicação dos povos Bororo e Xavante que vivem próximo às rodovias

Por Fernanda Escouto/Gazeta Digital

O Ministério Público Federal (MPF) em Barra do Garças (509km a leste da Capital) expediu uma recomendação ao Ibama e ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) exigindo dos dois órgãos medidas para dar seguimento à regularização ambiental das rodovias federais BR-070 e 158, além da instalação de placas de sinalização e obras de segurança os trechos que atravessam Mato Grosso.

A recomendação, assinada pelo procurador da República Wilson Rocha Assis, atende à reivindicação de indígenas das etnias Bororo e Xavante que vivem em terras às margens das duas rodovias e são as principais vítimas do grande fluxo de veículos associado à falta de sinalização nas rodovias, de acostamento, passarela e faixa de pedestres.

Rodovias ainda não tem regularização ambiental

Em funcionamento há muitos anos, as duas rodovias ainda não têm regularização ambiental até hoje, apesar de o Dnit ter iniciado o processo de regularização há quatro anos. Para resolver a situação de rodovias como a BR-070 e a BR-158, Ministério do Meio Ambiente publicou uma portaria com as instruções para a regularização ambiental das rodovias pavimentadas que não possuem licença ambiental.

Apesar de já haver o reconhecimento da presença de indígenas na região, o andamento do processo de regularização das duas rodovias está dependendo, segundo informações enviadas pelo Dnit ao MPF, de manifestação do Ibama para que o órgão defina se haverá necessidade de elaborar estudos sobre o impacto causado a esses povos.

Em uma reunião realizada no dia 20 de junho deste ano na sede do MPF e com a presença da Polícia Rodoviária Federal e da Funai, cerca de 40 representantes das duas etnias indígenas reclamaram da morosidade do Dnit e disseram que se nada fosse feito , eles iriam analisar que atitudes os índios poderiam adotar.

A recomendação do MPF foi expedida no dia 27 de junho e o prazo para que Ibama e Dnit se manifestem é de 30 dias. No documento o MPF cobra expressamente ao Dnit a construção de trevos nas entradas das aldeias, construção de pontos de ônibus e pistas recuadas para abrigo da população indígena usuária do transporte coletivo, instalação de passarelas e faixas de pedestre nos principais pontos de travessia, construção de acostamento, instalação de radares providos de estruturas e/ou equipamentos de proteção que impeçam a sua derrubada, construção de ciclovia nos trechos da rodovia contíguos a terras indígenas, revitalização e correção da sinalização, com instalação de placas trilíngues (português, xavante e bororo).

Ao Ibama, o MPF recomenda que a instituição firme o termos de compromisso com o Dnit para regularizar as rodovias com a determinação clara de que o procedimento de regularização deve conter o estudo do componente indígena.

Fonte: Gazeta Digital

Imagem: Acácio Rocha (internet)

27
jun
14

Curso Dimensões das Culturas Indígenas

Curso Dimensões das Culturas Indígenas

O Museu do Índio/Funai, com sede no Rio de Janeiro, está oferecendo o Curso de Férias 2014. O curso está ligado ao Programa de Promoção de Arte Indígena – Índio e Arte. O curso ocorrerá às tardes (das 14 às 17 horas) de 21 de julho à 01 de agosto, no Museu do Índio. As inscrições vão até 18 de julho de 2014 e o valor é de R$ 300,00 (profissionais) e R$ 150,00 (estudantes)

Mais informações pelo telefone (21) 3214-8718 ou pelo email divulgacao.cientifica@museudoindio.gov.br

23
jun
14

Fogo amigo

Estudos mostram que a prática indígena de queimar grandes áreas de cerrado é benéfica para o bioma. Além de inofensivas, queimadas controladas protegem a vegetação e a fauna locais.

Por Sofia Moutinho/Ciência Hoje

Fogo amigo

Na ‘caçada de fogo’, tradição cultural dos xavantes, grupos de indígenas promovem queimadas controladas para acuar animais. (foto: James Welch)

Nos últimos sete anos, os índios xavantes da aldeia Pimentel Barbosa, no Mato Grosso, atearam fogo a cerca de 370 mil hectares de cerrado, o equivalente a 83% da reserva federal em que vivem. A maioria das queimadas é provocada intencionalmente para caçar animais que, acuados com as labaredas, se dispersam e caem nas mãos dos caçadores indígenas.

A informação sem contexto pode parecer chocante e antiecológica, mas pesquisadores garantem que a prática de queimar grandes áreas de cerrado – adotada por nativos há séculos – é benéfica para o bioma e seus moradores.

Os xavantes, bem como os caiapós, os crahôs e os canelas, usam o fogo para tratar a terra de plantio, para rituais e para promover a ‘caçada de fogo’. Nesse evento, realizado pelo menos uma vez por ano, indígenas liderados pelos mais velhos da tribo ateiam fogo a grandes áreas de forma controlada e estratégica. Formam um grande círculo de fogo, que pode se estender por centenas de hectares, e aguardam os animais em fuga. A caça é apresentada em cerimônias como casamentos e ritos de passagem para a vida adulta.

Veja como são feitas as caçadas de fogo

De acordo com estudos recentes, essa tradição cultural não só é inofensiva, como também promove a proteção da vegetação e, por consequência, da fauna. Análises conduzidas por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre imagens de satélite da aldeia Pimentel Barbosa registradas nas últimas quatro décadas mostram que, apesar das queimadas constantes, a terra indígena mantém-se coberta de vegetação e mais bem conservada que a região ao redor, ocupada por fazendeiros. Enquanto a área desmatada na aldeia se manteve estável em 0,6% entre 1973 e 2010, o desmatamento em seu entorno aumentou de 1,5% para 26% durante igual período. 

Coimbra Jr.: “A  estratégia xavante de manejar o ambiente para a própria sobrevivência é muito mais compatível com uma preservação de longa duração que as estratégias de tomada de áreas de cerrado por fazendeiros”

As imagens de satélite também revelam que, a partir de 2000, o desmatamento na terra indígena caiu 68%. O número se explica pelas incorporações de latifúndios devastados que passaram a ser dos índios a partir da década de 1980 e foram recuperados.

“Ao analisar os dados, observamos que dentro da terra indígena não existe devastação ambiental”, afirma um dos envolvidos no estudo, o biólogo e antropólogo Carlos Coimbra Jr. “As evidências apontam muito fortemente que a estratégia xavante de manejar o ambiente para a própria sobrevivência é muito mais compatível com uma preservação de longa duração que as estratégias de tomada de áreas de cerrado por fazendeiros. Fica claro que a caçada de fogo promove a preservação.”

Pesquisas dos últimos 20 anos demonstram que, de fato, o fogo pode ter um papel protetor da vegetação em paisagens campestres e de savana, como a maior parte do cerrado brasileiro. A bióloga Vânia Pivello, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda a ação do fogo sobre a vegetação, explica que as plantas do cerrado convivem com as chamas, provocadas por raios e por humanos, há milênios.

Assim, o bioma se adaptou às queimadas. As árvores têm troncos grossos resistentes ao calor e muitos frutos têm invólucros que protegem as sementes de altas temperaturas.

Benéfico e necessário

“Em certas paisagens como as florestas tropicais – por exemplo, a Amazônia –, o fogo é extremamente prejudicial. Mas há vegetações, como a do cerrado, que precisam do fogo para cumprir seu ciclo biológico (promovendo a floração, a produção de frutos e a liberação das sementes) e, por consequência, manter os animais que se alimentam dessas plantas”, aponta. “O fogo não é só benéfico, como necessário para o cerrado.”

Por ficar muito seca na época da estiagem, a vegetação do cerrado queima com facilidade – não é à toa que a região é campeã de ocorrências de incêndios florestais do país, geralmente iniciados por raios ou queimadas ilegais que saem de controle. Por mais estranho que pareça, para evitar que esses incêndios se alastrem, o melhor aliado é o próprio fogo. 

Experiências conduzidas por Pivello e colegas mostram que queimadas controladas previnem o avanço de incêndios ao consumir o excesso de matéria orgânica seca acumulada, um combustível poderoso que só espera por uma centelha para deflagrar calamidades. “O fogo pode ser um importante instrumento de manejo da vegetação”, diz a pesquisadora. “Áreas intencionalmente queimadas em padrão de mosaico funcionam como barreiras que impedem a expansão de incêndios.”

Você leu apenas o início da reportagem publicada na CH 314. Clique aqui para acessar uma edição resumida da revista e ler o texto completo. 



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